comorosasdeareia

palavras...como "rosas de areia" ou "flores do deserto"...

quarta-feira, setembro 28, 2005

nuvem.jpg

Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir
à despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão subtil... tão pólen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de Outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...

José Gomes Ferreira

9 Comments:

  • At 8:53 da tarde, Anonymous Márcia said…

    que poema incrível! li, reli, trili: estou pasma. vou salvar aqui pra aprendê-lo.
    beijo de primavera, Maria.

     
  • At 8:31 da manhã, Anonymous Maria do Céu Costa said…

    Um poema que descreve um percurso poético da morte através das nuvens. Gostei.

     
  • At 11:15 da manhã, Blogger LetrasaoAcaso said…

    Adoro as tuas escolhas...
    Beijinhos

     
  • At 10:04 da tarde, Blogger JPD said…

    Olá maria: a escolha é excelente. Se se fizesse uma resenha da poesia que aqui tens divulgado, obter-se-ia uma antologia admirável.
    Este poema do ZGomes Ferreira é extraordinário por execrar a morte com uma ironia finíssima.
    Beijinhos

     
  • At 10:25 da tarde, Blogger lique said…

    E seria uma bela forma de morrer! Um poema extraordinário. Beijinhos, Maria.

     
  • At 12:26 da manhã, Blogger Astronauta said…

    Um poema que ao falar-nos de morte, nos acaba por deixar serenos e sem medos... afinal pode ser que sejamos futuramente nuvens, porque a voar e sentir as brisas na face, que linda forma de "viajar".

     
  • At 5:12 da tarde, Blogger manuel said…

    Como uma festa!... Como momento único de cumplicidade e amor.

    Sempre tu, Maria! beijos

     
  • At 8:42 da tarde, Blogger M.P. said…

    Olá, Maria! Depois ler este Poema de Serenidade de Outuno de Paz venho desejar-te uma boa semana e agradecer-te as palavras bonitas que vais deixando em meu "território"! :)**

     
  • At 1:07 da tarde, Blogger ernesto esteves said…

    Por acaso, ou não, encontrámo-nos. E como isso é espectacular...
    Adoro conhecer os lindos trabalhos dos meus colegas bloguistas.
    PARABÉNS e felicidades!

     

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