comorosasdeareia

palavras...como "rosas de areia" ou "flores do deserto"...

quarta-feira, abril 05, 2006



REGRESSO

Sem mais nem menos
surgiu o passado,
corpo intranquilo
feito de sons semelhantes
aos rostos que amei,
universo donde me excluí,
mar desprovido de cais
na obliquidade dos contrastes.

Esta noite voltei à minha infância:
menina rosada de sonhos nos bolsos,
bailarina de corda na caixinha de som.

À infância regressa-se solitariamente,
subindo um rio sem margens,
até ao lugar em que a nascente
se confunde com o tempo
e o tempo se transforma em espanto.

Procuro, teimosamente,
o rasto da brisa
que me invade o corpo
e apenas sei que o sonho
é um risco inquietante,
quando a solidão tem rosto
e se conhece a posição das estrelas
no âmago das palavras.

Reinicio a infância
no esboço do poema
e circunscrevo o litoral
fragmentado do que sou.

Quem foi que descodificou
o céu no meu olhar
e me deixou na alma
um deus imaginado?

Quando o espaço do sonho é circular
como o tempo das cerejas,
ou da migração dos pássaros
que fendem o infinito,
inadiado é o rito da poesia.

Se eu fosse uma gaivota, dançaria
na proa dos veleiros
até à hipnose
de abraçar a maresia.
Graça Pires

10 Comments:

  • At 11:42 da manhã, Blogger jorgesteves said…

    '...à infância regressa-se solitariamente...'
    Diria que não (só) à infância; regressar é sempre uma viagem solitária, mesmo que seja apenas um retorno físico. Em cada gesto, em cada imagem, em cada passo há sempre um ar impregnado de cheiros antigos, um olhar e um Tempo diferente pousados sobre os mesmos horizontes...
    (grato pela visita; vou voltar...)
    jorgesteves

     
  • At 11:44 da manhã, Blogger wind said…

    Tu "matas-me" com estes belísimos poemas de Graças Pires. Adoro esta poetisa que descreve tão bem os sentimentos, as recordações. Beijos e boa Páscoa:))**

     
  • At 11:45 da manhã, Blogger wind said…

    Correcção:belíssimos:)

     
  • At 8:40 da tarde, Blogger JPD said…

    Um poema extraordinário.
    Bom, belíssimo regresso.
    Desejo maior assiduidade. Valeu?!
    Bjs

     
  • At 11:09 da tarde, Blogger Sandra said…

    Adoro poesia.
    Acho que esta fopi uma excelente sugestão!Bjs

     
  • At 11:12 da tarde, Blogger maria papoila said…

    a propósito deste poema e sei lá mais de quê transcrevo p/quem o quiser ler um parágrafo do livro da minha vida "vai aonde te leva o coração": ...e quando à tua frente se abrirem muitas estradas e não souberes a que hás-de escolher, não metas por uma ao acaso, senta-te e espera. Respira com a mesma profundidade confiante com que respiraste no dia em vieste ao mundo, e, sem deixares que nada te distraia, espera e volta a esperar. Fica quieta, em silêncio, e ouve o teu coração. Quando ele te falar, levanta-te e, vai para onde ele te levar..." Susana Tamro

     
  • At 4:48 da tarde, Blogger Manel do Montado said…

    Escolha excelente e bem cheia de recordações de todas as infãncias.
    beijo e bom FDS

     
  • At 10:37 da tarde, Blogger Å®t_Øf_£övë said…

    Maria,
    Bonito este poema que escolheste para partilhar connosco.
    Gostei de ler.
    Bjs.

     
  • At 4:11 da tarde, Blogger M.P. said…

    Olá, Maria! Tenho passado para te ler... não me tenho esquecido de ti. Aproveito para te desejar uma ÓPTIMA Páscoa, e um pedido de desculpas à "greve" aos comentários... Beijinho

     
  • At 5:16 da tarde, Anonymous lique said…

    Também eu regresso aqui, a este espaço de sonho. Porque a poesia é para assimilar assim, dada com a tua generosidade.
    Beijinhos, Maria.

     

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