comorosasdeareia

palavras...como "rosas de areia" ou "flores do deserto"...

quinta-feira, outubro 21, 2004

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REGRESSO

Sem mais nem menos
surgiu o passado,
corpo intranquilo
feito de sons semelhantes
aos rostos que amei,
universo donde me excluí,
mar desprovido de cais
na obliquidade dos contrastes.

Esta noite voltei à minha infância:
menina rosada de sonhos nos bolsos,
bailarina de corda na caixinha de som.

À infância regressa-se solitariamente,
subindo um rio sem margens,
até ao lugar em que a nascente
se confunde com o tempo
e o tempo se transforma em espanto.

Procuro, teimosamente,
o rasto da brisa
que me invade o corpo
e apenas sei que o sonho
é um risco inquietante,
quando a solidão tem rosto
e se conhece a posição das estrelas
no âmago das palavras.

Reinicio a infância
no esboço do poema
e circunscrevo o litoral
fragmentado do que sou.

Quem foi que descodificou
o céu no meu olhar
e me deixou na alma
um deus imaginado?

Quando o espaço do sonho é circular
como o tempo das cerejas,
ou da migração dos pássaros
que fendem o infinito,
inadiado é o rito da poesia.

Se eu fosse uma gaivota, dançaria
na proa dos veleiros
até à hipnose
de abraçar a maresia.

Graça Pires

11 Comments:

  • At 11:25 da tarde, Blogger pipetobacco said…

    { … deixo-te luz.de.tecto … }

     
  • At 8:19 da manhã, Blogger frog said…

    Olá! Lindissimo este poema! Depois de o ler, também quis voltar à minha infância, de sonhos nos bolsos...os sonhos de hoje, são um risco inquietante quando a solidão tem rosto.

    Um beijo e um optimo fim de semana.

     
  • At 10:55 da manhã, Blogger manuel said…

    ah! este mergulho em nós
    essa matriz de nossos gestos
    que são a infância
    e o tempo da cerejas...

    que beleza de poema! beijos, Maria!
    bom fim de semana

    DonBadalo

     
  • At 2:37 da tarde, Blogger lique said…

    Que belo poema, Maria! Fica-nos uma vontade de voltar à infância, ao "espaço dos sonhos", ao "passado (...) feito de sons semelhantes aos rostos que amei". Beijinhos. Bom fim de semana

     
  • At 9:43 da tarde, Blogger LetrasAoAcaso said…

    Levaste-me de volta a anos idos e dos quais tenho saudades, Maria.
    Tantas vezes desejava voltar a ser criança!
    Este teu poema está belissimo e apela ao melhor de nós.
    Pela parte que me toca e por me teres feito sentir criança ainda que por minutos, deixo-te beijinhos muito meigos amiga

     
  • At 10:34 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    Um dos mais belos poemas de Graça Pires:) Bom fim de semana e beijos:)** wind

     
  • At 10:50 da tarde, Blogger R said…

    OLA, SO POSSO DIZER QUE È LINDO:))
    BJS
    LIZ

     
  • At 10:52 da tarde, Blogger JPD said…

    Quando puderes, dá nota da bibliografia da Graça. valeu?
    Bjs

     
  • At 8:20 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    Olá! Vim-te desejar um BOM fim de semana apesar do mau tempo previsto ... Mas... na infância havia Sonho... para a infância se regressa em busca do tempo de despreocupação, em busca da capacidade de Sonhar que esta vida não vida do dia a dia vai matando lentamente... é bom não deixar morrer a criança dentro de nós, aquela centelha que ficou do saber imaginar mundos outros, onde se é aquilo que se quer ser... :)**

     
  • At 8:21 da tarde, Anonymous Anónimo said…

    Esqueço-me sempre de dizer quem sou..LOL.. ** M.P.

     
  • At 11:52 da tarde, Blogger JPD said…

    Muito bonito!
    Bjs

     

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