
ESTÁTUA DE SAL
Já não cheiram a mar nem a pecado
os teus cabelos.
Já não me sabe a sal
a tua boca.
Já não sabes descobrir de olhos fechados
a ternura em cada canto do meu corpo
os desejos disfarçados
escondidos e calados entre os juncos
adiados
atrás das dunas e dos medos
nem trazes já ondas entre os dedos.
Já não sabes perder as tuas mãos
nos caminhos proibidos dos sentidos
interditos, ilegais.
E nos teus braços
já não trazes laços nem sinais
dos abraços exilados no luar.
Já não trazes nas palavras
a coragem das senhas proibidas
orgias de dor e de prazer
tamanhas, desmedidas
que sabias dizer.
E o teu peito
já não é mais o leito ou o regaço
onde deito o meu cansaço e adormeço
como se eu fosse uma criança
e o teu peito um berço.
Já não dissolvo a minha dor no teu sorriso
que era quente como o sol
que era enorme como o mar
e também já não trazes espelhos no olhar
só poeira...
E quando me deito à tua beira
já não te sinto inteiro na raiva ou na ternura
divino, marginal.
Em ti já só pressinto, esculpida em tédio e vento
uma estátua efémera de sal...
Maria
7 Comments:
At 12:10 da tarde,
Nilson Barcelli said…
O poema do desencanto...
Acontece aos melhores amores querida amiga.
O poema é excelente, ao teu melhor nível.
Bom Domingo.
Beijo.
At 2:52 da tarde,
Arantza G. said…
Poema que duele, que abarrunta el adiós o cuando menos, la decepción.
Gracias por tu visita.
Un abrazo.
At 5:01 da tarde,
Manuel Veiga said…
o Tempo, querida Amiga. que seca a pele, mas também perfuma o licor da vida...
belíssimo poema. é com enorme alegria que saudo o teu regresso. ás lides poéticas.
beijo
At 7:36 da tarde,
Anónimo said…
Leve então
O resto desta ilusão
E todos os cuidados meus
Brinquedos dos caprichos
É pena porque foi tão lindo amar
Sentir você sonhar tão junto a mim,
Ouvir tanta promessa,
Fazer tanta esperança,
Pra hoje ver lembrança, tudo enfim
Nâo passou
De um triste desencanto, amor,
E desde então eu canto a dor
Que eu não soube chorar
Desencanto
Chico Buarque
Muito sentido o teu poema...
...estremeci.
Um beijo
Al_muthamid
At 6:01 da tarde,
Nilson Barcelli said…
Um bom resto de semana para ti.
Beijo.
At 7:43 da tarde,
vida de vidro said…
O tempo tudo muda. Damos por nós a entoar odes ao desencanto. Mas o que foi, valeu. Enriqueceu a vida. Gosto de voltar a ler palavras tuas, Maria. Beijo.
At 11:30 da manhã,
Graça Pires said…
Desencanto. Desencontro. Um belo poema do sentir e da solidão.
Um beijo Maria.
Enviar um comentário
<< Home